O recente debate político sobre o latifúndio, sobre a
propriedade da terra e a reforma agrária está completando um século no Brasil e
agora temos uma oportunidade para ajustar e avançar neste tema, conforme a
proposta do Ministro Patrus Ananias do MDA de realizar uma grande conferência
nacional sobre a terra e sua função social.
Historicamente, foram quatro oportunidades
perdidas pelo Brasil para fazer a reforma agrária: A primeira com o fim do regime das sesmarias (1822). A segunda
com a crise de 1920 e o início do processo de industrialização e que inaugura o
atual debate. A terceira oportunidade foi no governo João Goulart (1963) com o
fortalecimento das organizações sociais de um lado e um governo disposto a
realizá-la de outro lado. E a quarta oportunidade registrada é com a Nova
República e o 1º Plano Nacional de Reforma Agrária (PNRA).
Pode-se dizer que a reforma agrária no Brasil começa mesmo
antes do marco do descobrimento, com tratado de Tordesilhas (1494) que
divide o território em duas metades entre Portugal e Espanha. Processo que se completa
com a instituição das capitanias hereditárias em 1530 e com o Regime das sesmarias que
somente foi alterado depois da independência, por ocasião do Primeiro Código de Terras do Brasil, a
Lei de Terras (1850). Ainda,
grosso modo, passamos pela Abolição da Escravatura (1988) e pela Proclamação da
República (1989), mas a situação agrária brasileira pouco mudou.
Institucionalmente, o assunto retorna em 1950, com o início do processo de industrialização
e uma nova configuração se estabeleceu com o Estatuto da Terra e a criação do
INCRA (1964). Assim, até o fim de 2014, foram contabilizados 9.127 projetos com
uma área total de 88.297.609
ha e 956.543 famílias assentadas.
Do lado dos vencidos, a luta pela terra no Brasil é contada pelos
indígenas massacrados e resistentes a ocupação, pelos escravos fugidos ou
abandonados. Pelas histórias das resistências, como os motins nos sertões das
Minas Gerais, a beira do São Francisco, em 1736. As lutas de posseiros e
camponeses, desde os primeiros momentos da ocupação do interior e pelos
parceiros, colonos e agregados ao redor das grandes fazendas de cana-de-açúcar
e café. As primeiras proposições políticas relativas à divisão das terras só
vão surgir na década de 20, com a Coluna Prestes e a criação do Bloco Operário
e Camponês (1927), apesar do registro de greves nas fazendas de café em
Ribeirão Preto (1912). Mas recentemente, as Ligas Camponesas (1950), os
Sindicatos de Trabalhadores Rurais e o Movimento dos Sem Terra (1980) e na
atualidade o protagonismo social da CONTAG, FETRAF, MPA, MAB continuam a luta e
a resistência à Revolução Verde que promoveu a modernização conservadora no
meio rural brasileiro com o esvaziamento do campo, a concentração da propriedade
e estabeleceu um padrão produtivo e tecnológico, apropriado pelo sistema
capitalista internacional.
Propõe-se como prioridades, no contexto de
construção do 3º PNRA, algumas metas já estabelecidas e outras para
continuidade do debate: 1) Assentar todas as famílias acampadas (estimadas
entre 60 e 120 mil famílias); 2) Garantir a melhoria na estrutura e nos
investimentos dos projetos de assentamento, 3) acabar com a dicotomia entre
assentado da reforma agrária e agricultor familiar, 4) Reposicionar o INCRA,
concentrando-o no desenvolvimento territorial, focando na obtenção de terras e
nos projetos de assentamento, modernizando sua gestão com difusão do uso da
tecnologia da informação para reduzir os tempos processuais, retirando entraves
e melhorando a transparência e as técnicas de participação e monitoramento, com
concurso público, reestruturação de cargos e salários e principalmente com
metas bem definidas, 5) Revisar e atualizar o conceito de módulos
fiscais/rurais, 6) Reconceitualizar a função social da propriedade, 7) Índice
de produtividade 8) Ampliar as linhas de financiamento para o crédito
fundiário, em especial para fomentar a sucessão rural. 9) Além disso, é
imperioso reescrever o Estatuto da Terra e 10) Reunir a temática da regularização
fundiária, como função do Estado, atualmente difusa em diferentes instituições
como o INCRA, MDA, FUNAI, FUNDAÇÃO PALMARES e SPU.
Por isso, ao contrário das vezes anteriores, temos que
aproveitar o mandato atual e garantir o imperativo de recolocar Reforma Agrária
como prioridade na perspectiva de finalizar o ciclo atual, que inclui ajustar nossas
diretrizes políticas para avançar. Tempo, oportunidade e vontade política para ajustar e avançar a reforma agrária no Brasil.
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